quinta-feira, 3 de março de 2011

ESTE PAÍS NÃO TEM VERGONHA DOS SEUS CRIMES




Antes de começar a falar mal das instituições que combatem o crime, devo confessar que há quase quarenta anos fui preso em acção e depois levado para Lisboa onde fui interrogado pela PJ. Para além do crime de que era acusado indiciaram-me uns outros tantos tais como o desaparecimento de muitos quilos de pólvora. Senhor inspector - disse eu - isso é tudo mentira. Mas se o senhor quer que eu confesse comece a bater-me. Quando eu não puder aguentar a porrada, naturalmente que confessarei tudo o que quiser mais a história de Portugal. O inspector respondeu-me da seguinte maneira: não usamos estes métodos. Então, senhor inspector - retorqui - encontramo-nos no Tribunal. Voltei para Caxias são que nem um pêro. Não tenho nada a apontar à PJ a não ser quando anos mais tarde esta estava a fazer a reconstituição de um assassinato de que fora vítima um familiar meu e ela mais parecia um grupo de bons rapazes que não tendo arranjado emprego numa boa pastelaria tinha optado por pertencer a órgãos de investigação criminal. Uns nabos nada mais. Hoje, a PJ está cheia de advogados que se tornaram polícias Fui colega de alguns numa pós-graduação. A minha opinião é de que são necessários muitos mais cursos e anos até que aquela polícia venha a ter a capacidade e personalidade que adquiriu no passado. Bem, vamos aos factos. Numa manhã desta semana, no programa do Manuel Luís Goucha, o bastonário da Ordem dos Advogados afirmou na cara de Portugal que havia uma mulher do povo que tinha sido acusada de ter assassinado a filha não havendo provas. A menina chama-se Joana e tinha desaparecido. A PJ usou métodos de tortura medieval e sob os quais ela teria confessado que a tinha matado. A mulher em causa de nome Leonor Cipriano está presa injustamente há anos faltando-lhe ainda cumprir uma série deles. O corpo da menina nunca foi encontrado e a prisão e condenação foi feita baseada - como afirmou o bastonário - nunca confissão à base de pancada e grande violência. Sejamos homens e falemos à homem (isto quer dizer, falemos claro sem estar a excluir quem não se assuma como tal, é mais o único modo que tenho para expressar o que quero escrever). Somos todos cúmplices da acusação que fez o dr. Marinho Pinto. Polícias, magistrados do MP, juízes de instrução, juízes do colectivo, o homem da rua, todos mas todos somos culpados pelo que a "justiça portuguesa" fez à pobre Leonor Cipriano. Calamo-nos que nem bosta de cobardes. Não exigimos que se reveja o caso. Não piamos. Deixamos uma inocente a apodrecer na cadeia. Ninguém do alto abre a boca para não interferir no curso da justiça. Filhos das ervas, pois quando toca à actuação da PJ em casos que mete políticos e corrupção, políticos e pedofilia e etc, aparecem no proscénio uns tantos porta-vozes a clamar por justiça e a acusarem os maus métodos das polícias. Há grandes ladrões com responsabilidades políticas que depois de condenados se passeiam entre nós fazendo-se de vítimas e etc. Ainda há pouco tempo um modelo confessou a morte de um cronista e num repente se montou uma onda de apoio ao assassino. Os jornais - que são uma amostra vergonhosa daquilo a que chegámos - gastaram rios de tinta sobre o assunto. À pobre mulher a quem o bastonário Marinho ilibou publicamente, nem uma palavra. Parece que estamos na Idade Média. É preciso lá de vez em quando matar uma bruxa do povo para saciar a nossa bestialidade. Demonstrar um erro judicial que recai sobre uma pobre mulher do povo não interessa à malta e não dá lucro a ninguém. Essa é a razão por que ela há-de apodrecer na cadeia. Quando era miúdo aconteceu que numa rixa um homem foi morto à facada. O homem com quem este estava a trocar uns socos foi acusado e condenado a vinte anos de prisão. Dez anos após estar a apodrecer na cadeia foi libertado porque o verdadeiro faquista confessou ao padre antes de morrer que tinha sido o autor do crime. O Estado pagou-lhe uma indemnização de vinte contos e mandou-o para a terra. Recordo-o como se fosse hoje. Um homem com dignidade e de poucas falas. Parecia um cowboy dos antigos filmes americanos, daqueles que nunca usam truques baixos quando lutam. Deu em beber e numa noite deitou-se no meio da estrada a dormir. Morreu atropelado.

manuelmelobento

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